Paróquia

Santa Rosa de Lima

Mensagem do pároco › 06/05/2021

O que é um cônego?

Domingos Zamagna (*)

 

Muita gente não sabe o que é um cônego, o que são os cônegos. E no entanto eles estão copiosamente presentes na literatura e na história de Portugal e do Brasil.

Alguns exemplos para refrescar a memória.

Eça de Queirós nos fala do cônego Dias de Leiria no romance O Crime do Padre Amaro; Machado de Assis fala do cônego Matias no famoso conto O Cônego ou a Metafísica do Estilo; há um conhecido poema de Aluíso Azevedo chamado O Cônego Filipe; o cônego Diogo é um dos personagens de O Mulato, de Aluízio Azevedo…

O cônego Luiz Vieira da Silva foi um dos mentores da Conjuração Mineira (1789). Embora pobre e vivendo na longínqua e mal povoada capitania das Minas Gerais, de onde nunca saíra, numa época difícil para a aquisição de livros, achou meios de reunir uma notável biblioteca, em dia com as idéias progressistas européias, consideradas perigosas pela monarquia portuguesa. Sobre ele, aliás, vale a pena ler a primeira parte de famosa obra do escritor mineiro Eduardo Frieiro: O Diabo na livraria do cônego… O cônego Batista Campos foi o líder da Revolta dos Cabanos (a Cabanagem, entre 1835-1840, no Pará). O cônego Januário da Cunha Barbosa e o seu amigo, o estadista e líder maçom Joaquim Gonçalves Ledo, foram próceres da Independência do Brasil em 1822. E teríamos muitíssimos exemplos para citar !

O vocábulo cônego, do latim “canonicus”, designa o clérigo que está inscrito na lista, no cânon de uma igreja. Antigamente esses clérigos tinham vida comum com o bispo na igreja catedral, daí muitas vezes brotando uma ordem religiosa (cônegos regulares). O mais comum, porém, foi a constituição de cônegos de capítulos seculares, prática comum na Igreja desde o século XII. Reunidos, assim, em capítulos, de onde deriva o nome do colegiado (cabido), os cônegos se tornaram uma espécie de “senado” da diocese, conselheiros ou assessores diretos do trabalho episcopal, com ênfase para a administração pastoral e o culto religioso, especialmente o da catedral. Chegaram a exercer funções muito variadas, de acordo com as necessidades da Igreja, como a criação de paróquias, a guarda dos arquivos eclesiásticos, as celebrações dos ofícios litúrgicos, a provisão do governo da diocese em caso de morte ou transferência do bispo. A partir do Concílio do Vaticano II, parte de suas funções começou a ser fraternalmente compartilhada com uma nova instituição criada pelo Concílio, o Conselho de Presbíteros.

Sobre a importância dessa função, porém, não pairam dúvidas quando se lê, no Código de Direito da Igreja (cân. 509, 2): “Os bispos diocesanos confiram os canonicatos só a sacerdotes que se distingam pela doutrina e integridade de vida e que exerçam o ministério de modo louvável”. Assim sendo, a designação de um sacerdote para a conezia deve ser ocasião de alegria não só para ele, mas também para todo o clero e para todos os leigos da diocese, pois ele se tornará ainda mais comprometido com a oração e o governo pastoral da diocese.

Não nos deixemos impressionar pelos aspectos secundários da prática da conezia, como por exemplo, as vestimentas pouco usuais e um tanto “bariolées” com que estes sacerdotes são revestidos. Porque o que conta mesmo é o serviço que eles prestam à comunidade.

Na história dos cônegos do cabido de São Paulo registra-se um grande número de sacerdotes que fizeram jus à confiança que neles depositou o Arcebispo, pois se esmeraram e até hoje se esmeram na prática de todo o bem espiritual e cultural para nossa cidade. De fato, entre eles encontramos excelentes teólogos, liturgistas, pastoralistas, confessores, catequistas, oradores, apologetas, cultores da língua portuguesa, poliglotas, tradutores, artistas, escritores, professores, conferencistas, cientistas, jornalistas, arquivistas, juristas, músicos, promotores de obras sociais, historiadores… Um deles, monsenhor Paulo Florêncio da Silveira Camargo, historiador de primeira grandeza, deixou-nos uma primorosa História da Igreja de São Paulo em sete volumes, publicada por ocasião do IV Centenário da cidade, portanto há exatamente 50 anos. Esta valiosa obra acha-se esgotada há muito tempo e seria ótima idéia se ela fosse reeditada.

Registro aqui essa sugestão que o jovem Cônego Severino Martins poderia apresentar ao Colendo Cabido Metropolitano, tradicional promotor de cultura, na esperança de que ele a possa acolher – quem sabe – como sua histórica e inesquecível homenagem aos 450 anos da nossa cidade e do Jubileu de Ouro da inauguração da Catedral Metropolitana.

 

(*) Domingos Zamagna é jornalista e professor de Filosofia.

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